quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A DIMENSÃO PEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: QUESTÕES DIDÁTICAS E EPISTEMOLÓGICAS
                                                                                  José Carlos Libâneo*

O objetivo deste texto é sugerir um ponto de vista pedagógico em relação à educação física. A pedagogia e a educação física têm muito a oferecer uma à outra porque se há uma dimensão física da educação, há uma dimensão pedagógica da educação física. Quando falamos de uma educação física, a primeira idéia que aparece é de uma atividade educativa referente a um aspecto da personalidade humana, o desenvolvimento físico. A teoria educacional atual concebe o ser humano como uma unidade na qual se realizam as dimensões físicas, cognitiva, afetiva, social, moral, estética, ambiental, todas elas envolvendo a personalidade humana. A dimensão física integra tudo o que diz respeito à motricidade humana, ao dominio do espaço, aos gestos e expressões do corpo, dando origem à educação física e à prática pedagógica da educação física.
Por outro lado, falamos de uma dimensão pedagógica quando se trata da prática de atividades físicas de caráter psicomotor, lúdico, higiênico, estético, esportivo, de modo a que os indivíduos desenvolvam seu potencial de saúde e de atividades físicas. Temos, aí, uma prática pedagógica que propicia a educação geral de pessoas no âmbito das atividades físicas e esportivas.
            As relações entre a pedagogia e a educação física são abordadas neste texto em três tópicos:
1.      A dimensão física da educação humana;
2.      A dimensão pedagógica da educação física e a prática pedagógica em educação física;
3.      O processo investigativo da educação física e o “modo de pensar e agir” que lhe corresponde como referência para a prática pedagógica em educação física ou de como o modo de compreender pedagogicamente a educação física depende do como de compreendê-la epistemologicamente.



1. A dimensão física da educação
            Do ponto de vista da teoria educacional, a dimensão física da educação corresponde a um dos caminhos para se alcançar o desenvolvimento do conjunto da personalidade humana. Sabemos hoje que podemos distinguir conceitualmente entre educação física, a prática esportiva e o adestramento corporal, mas o que se acentua aqui é o papel das atividades físicas na formação geral.
O estudo do campo investigativo da educação física tem sido feito por muitos especialistas da área que propõem um ou outro dos seguintes objetos de estudo: motricidade humana, movimento corporal, corporeidade, cultura corporal. A meu ver, a explicitação do objeto é imprescindível para a discussão dos aspectos pedagógicos de um campo de estudos. Clarificar o objeto da educação física é condição para se formular uma fundamentação epistemológica e metodológica da pedagogia da educação física. Como não se fará neste texto uma discussão de cunho epistemológico, vou escolher um daqueles objetos de estudo mencionados - o movimento corporal - apenas para ilustrar minha argumentação sobre a dimensão pedagógica da educação física.
            O movimento, nesse caso, é o objeto da ação educativa física e, ao mesmo tempo, o meio de se obter a dimensão física da educação, isto é, a educação dos indivíduos através do movimento corporal. A educação física seria, assim, compreendida como conjunto de saberes, métodos e técnicas centradas no corpo e no movimento enquanto meios para formar a personalidade do aluno tanto do ponto de vista pessoal como social.
            Em que consiste a prática educativa através do movimento corporal? Dentro do interesse da teoria da educação, a educação física diz respeito ao corpo, talvez melhor, ao movimento do corpo, portanto à ação educativa através do corpo visando a educação completa das pessoas. E o modo de compreender isso pedagogicamente coincide com os processos de investigação próprios da educação física, ou seja, a apreensão, a compreensão, do movimento. As perguntas seriam: como captamos os movimentos, como observamos os movimentos, como funcionam e como sentimos os movimentos corporais? Como captamos o movimento no seu aspecto interno, como atividade vital e no seu aspecto de expressão da capacidade corporal nas suas formas culturais e pessoais?
            Essas perguntas são postas aos pesquisadores do campo teórico da educação física e os resultados de sua investigação ajudam os pedagogos a compreenderem a dimensão física da educação, a configuração do objeto de estudo desse campo e a identificação dos processos e procedimentos metodológicos de acessar esse objeto. Temos, assim, o ponto de partida para pensarmos a dimensão pedagógica da educação física.


2. A dimensão pedagógica da educação física
Antes de considerarmos os ingredientes pedagógicos da educação física será útil esclarecer o que é a pedagogia, o que é a dimensão pedagógica de alguma coisa.
Muitos professores compreendem pedagogia apenas como o modo de ensinar, as técnicas de ensino, o uso de melhores meios e recursos para que os alunos aprendam. Em parte pedagogia é isso, mas ela tem um significado mais amplo: é um campo de conhecimentos sobre a realidade da educação em vários contextos, cuja responsabilidade é formular objetivos sociais, políticos, culturais, e formas metodológicas e organizativas da ação educativa, visando a formação humana.
A pedagogia é, portanto, a teoria e a prática da educação. A idéia mais aceita que se tem, hoje, de educação é de que ela é uma prática social pela qual os seres humanos adquirem aquelas características humanas e sociais necessárias para a vida em sociedade. Ou seja, ela constitui-se do conjunto de ações, influências, processos, estruturas, que atuam no desenvolvimento humano de indivíduos e grupos em suas capacidades físicas, cognitivas, espirituais, morais, estéticas, num determinado contexto sociocultural e político. Pode-se dizer, ainda, da ação educativa, que ela atua através de saberes e modos de agir, tais como conceitos, teorias, habilidades, técnicas, procedimentos, estratégias, atitudes, crenças, valores, preferências, adesões, que precisam ser internalizados pelos indivíduos como condição de continuidade da sociedade e produção de outros saberes e modos de agir.
Adquirindo esses saberes e modos de agir, os indivíduos ganham um patamar necessário para produzir outros saberes, técnicas, valores, etc. Chamamos de mediação essa característica da ação educativa, porque é através dela que se favorece o desenvolvimento dos indivíduos na dinâmica sociocultural de seu grupo, sendo que o conteúdo dessa mediação são os saberes e modos de ação, isto é, a cultura que vai se convertendo em patrimônio de cada ser humano. As escolas e outras agências educativas não-escolares são os lugares em que dá a mediação cultural entre as práticas socioculturais e o desenvolvimento cognitivo e operativo (saber pensar, saber fazer, saber agir) dos educandos. A pedagogia, justamente, opera essa mediação cultural através de vários agentes, sob várias modalidades e em vários lugares sociais. Além dos agentes educativos convencionais – a família, a escola – tem-se uma multiplicidade de outros agentes como os meios de comunicação, as instituições sociais, culturais, recreativas, de saúde e cuidados corporais, os grupos sociais organizados, inclusive a cidade e os equipamentos urbanos, que atuam em vários lugares. Falamos, também, das modalidades informais, não-formais e formais da educação (Libâneo, 2000).
Trata-se, pois, de práticas educativas no plural, de modo que não podemos reduzir a pedagogia à educação escolar. Por conseqüência, se há uma diversidade de práticas educativas, há também várias pedagogias: a pedagogia familiar, a pedagogia sindical, a pedagogia dos meios de comunicação, etc., e também a pedagogia escolar. E, por que não, uma pedagogia da educação física nos vários contextos em que ela acontece?
Mas é preciso acentuar, ainda, que as práticas educativas vão se modificando conforme tempos e lugares, devido à sua natureza eminentemente social. Sendo prática social, ela acontece em meio a relações sociais entre grupos, classes, gerações, etnias, crenças. Numa sociedade em que as essas relações se dão entre grupos sociais antagônicos, com diferentes interesses, em relações de exploração de uns sobre outros, a educação só pode ser crítica, pois a humanização plena implica a transformação dessas relações. Isso significa que a pedagogia lida com o fenômeno educativo enquanto expressão de interesses sociais em conflito na sociedade em que vivemos. É por isso que a pedagogia expressa finalidades sociopolíticas, ou seja, uma direção explícita da ação educativa relacionada com um projeto de gestão social e política da sociedade. Então, dizer do caráter pedagógico das práticas educativas é dizer que a pedagogia, a par de sua característica de cuidar dos objetivos e formas metodológicas e organizativas de transmissão e assimilação de saberes e modos de ação em função da construção humana, refere-se, explicitamente, a objetivos éticos e a projetos políticos de gestão social. Esse entendimento do “pedagógico” indica intencionalidade, determinação, sistematização, controle de objetivos, contra formas espontaneístas de educar.
Resumindo: a educação, as práticas educativas, é a ação, os processos de formação das pessoas, a pedagogia é a reflexão e decisão sobre essa ação para definir objetivos e formas de realizar o trabalho educativo. Como a educação refere-se a assimilação e reconstrução da cultura, a pedagogia lida com tudo o que diz respeito à transmissão e assimilação de saberes e modos de ação, como são os conceitos, os códigos, as técnicas, as habilidades, as atitudes, os valores. Se temos saberes, modos de agir, modos de fazer, atitudes em relação à motricidade, ao corpo, ao desenvolvimento físico, a serem internalizados pelas pessoas, então posso falar de uma educação física e de uma pedagogia da educação física ou da dimensão pedagógica da educação física.
Podemos, agora, relacionar mais diretamente esses conceitos com a educação física. A educação física – uma dimensão da educação ao lado de outras como a cognitiva, a emocional, a estética, a moral – ocupa-se de processos intencionais de comunicação e internalização de saberes: saberes de conhecimentos, saberes de experiências, saberes de habilidades, saberes de valores, obviamente relacionados com a motricidade humana. A pedagogia viabiliza objetivos e formas metodológicas e organizativas das práticas da educação física. A dimensão pedagógica da educação física consiste em formular objetivos sociopolíticos e pedagógicos que orientam a internalização de conceitos, procedimentos, atitudes, valores, sob a forma de esquemas mentais e modos de proceder habitualmente. Isto implica a atividade docente, o uso de métodos e procedimentos, as formas pelas quais os alunos desenvolvem competências do aprender, do pensar, do agir, do ponto de vista físico, motriz.
A pedagogia precisa ser, ao mesmo tempo, teoria e prática. O pedagogo francês Jean Houssaye escreve que a pedagogia busca unir a teoria e a prática a partir de sua própria ação, e é nesta produção específica da relação teoria-prática em educação que ela tem sua origem, se inventa e se renova. Sendo assim, a dimensão pedagógica da educação física refere-se à teoria e à prática da construção no ser humano das suas características físicas e corporais, implicando objetivos, processos e meios dessa formação no âmbito físico num determinado contexto sociocultural de tempo e espaço. O pedagógico aparece na educação física pelo menos três vezes: como finalidade social e pedagógica, como processo de desenvolvimento da dimensão física e como resultado de um aluno “fisicamente ou motrizmente” educado. A educação física é uma das dimensões da educação, portanto, é matéria pedagógica, cabendo ao pedagogo apropriar-se da teoria da educação física para poder fazer uma reflexão sistemática sobre a dimensão física da educação, seus processos educativos e sua realização pedagógica onde quer que seja ensinada e aprendida. Tem-se aí uma necessária complementaridade entre a investigação pedagógica e a investigação específica no campo da educação física.

3. A dimensão pedagógica se realiza pela internalização, pelos sujeitos, de um modo de pensar e atuar “físico”, “motor”
            Conforme tentamos esclarecer, a dimensão pedagógica da educação física refere-se à assimilação e reconstrução de saberes da cultura, visando a formação dos alunos para a vida familiar, política, cultural, que é o podemos chamar de formação geral ou formação para a cidadania. Ocorre ai um triplo processo: transmissão, assimilação, reconstrução da cultura, cujo resultado é o desenvolvimento das capacidades cognitivas e operativas dos aprendizes – capacidade de pensar, julgar, agir – e o domínio dos conteúdos culturais e científicos (conhecimentos, habilidades, valores).
Então, o produto esperado da educação física é o desenvolvimento de capacidades e competências do pensar e agir em torno dos conteúdos e processos da educação física. Posso dizer isso de uma forma mais prática: um aluno que passa pelas aulas e/ou atividades de educação física, em qualquer lugar em que se considere a atividade física como educativa, precisa demonstrar:
·         que sabe transformar conteúdos específicos tais como teorias, conceitos, regras, métodos em instrumentos conceituais de análise e solução de problemas e dilemas da realidade;
·         que domina um conjunto de habilidades básicas relacionadas com a motricidade humana;
·         que sabe atribuir ao conhecimento e habilidades internalizados um caráter ético, valorativo, ou seja, que tem uma postura ética e política.
Ora, se se aceita que a dimensão pedagógica da educação física tem a ver com esses produtos de aluno, o conteúdo do ensino da educação física supõe ao menos três elementos:
·         Os saberes “físicos”, digamos, os saberes da motricidade humana, em sua relação e em sua complexidade, ligados à experiência sociocultural dos alunos;
·         Os esquemas mentais e as ferramentas conceituais que os alunos incorporam para compreender e transformar a realidade do ponto de vista da motricidade humana;
·         As ações que os alunos praticam em decorrência dos conteúdos e processos mentais que internalizam, em termos de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores.
Em resumo, o que impulsiona o desenvolvimento das capacidades de pensamento e ação dos alunos são os conteúdos e as capacidades intelectuais e físicas que decorrem de um modo de pensar próprio da construção do objeto da educação física, a motricidade humana. O desafio, portanto, que caracteriza a prática pedagógica na educação física é captar o percurso da investigação sobre o movimento corporal (motricidade humana) e descobrir o caminho metodológico pelo qual os alunos internalizam esse percurso, para assim, pensar e agir autonomamente em relação às práticas corporais.  A dimensão pedagógica da educação física consistiria de três elementos:
·         Formular os objetivos sócio-políticos e pedagógicos e os conteúdos correspondentes;
·         Captar os processo de investigação da realidade ou o modo de pensar que caracteriza os saberes da motricidade humana, ou seja, a aprendizagem e domínio prático do processo metodológico que corresponde às ciências que estudam a motricidade humana;
·         As formas de aplicar conceitos e processos de pensamento e de atuação na análise de problemas e situações concretas da atividade física, inclusive, habilidades e hábitos específicos relacionados à saúde e eficiência física.
            Em que consiste esse modo de pensar “físico” no processo de ensino e aprendizagem da educação física? Considerando-se que o campo disciplinar da educação física é o movimento corporal, qual é o modo de pensar que lhe é próprio, qual é o caminho metodológico ao qual recorre? Em outras palavras: em que consiste o pensar e o agir “motrizmente” ou “corporalmente”? Quais são as competências cognitivas e operativas requeridas de um aluno “educação-fisicamente” bem formado?
            São questões que somente o especialista em educação física pode responder e é claro que as respostas a elas levarão à constituição dos conteúdos de ensino. Mas, principalmente, essas respostas serão o ponto de partida para se orientar pedagogicamente o ensino reflexivo de educação física. Este modo de compreender a dimensão pedagógica da educação física apoia-se na idéia de que a escola é um lugar em que os alunos aprendem a desenvolver a razão crítica e a se construírem como sujeitos autônomos e críticos. Escrevi recentemente:
A escolarização básica obrigatória tem um significado educativo, político e social, implicando o direito de todos, em condições iguais de oportunidades, ao acesso aos bens culturais, ao desenvolvimento das capacidades individuais e sociais, à formação da cidadania, à conquista da dignidade humana e da liberdade intelectual e política. Este princípio se baseia na crença do poder da educação para propiciar o desenvolvimento da razão critica pelo exercício da racionalidade, a melhoria da qualidade da vida, o desenvolvimento da subjetividade e da sensibilidade, a compreensão e a solidariedade entre os seres humanos, a inserção no trabalho e na vida social (Libâneo,  2001).
A compreensão da escola como um dos lugares de desenvolvimento da razão crítica implica que todas as disciplinas e atividades curriculares devem buscar a educação reflexiva, isto é, a educação para o pensar, para o aprender a pensar - uma educação que estimula a capacidade de raciocínio, análise e julgamento.
Com efeito, há, presentemente, três linhas da mudança de paradigma na educação: investigações sobre a inteligência, o novo conceito de aprendizagem e as experiências educativas articuladas com os contextos socioculturais.
A inteligência está relacionada com a aquisição de conhecimentos e habilidades mas, principalmente, é vista hoje como capacidade a ser aplicada e explorada pelos indivíduos. As recentes investigações destacam a forma de utilização da inteligência, i.e., as estratégias que se utilizam para aplicar efetivamente a inteligência. A aprendizagem é uma tarefa do ser ativo, que constrói seu conhecimento e sua personalidade, de modo que torna-se muito importante o ensino do pensar e do aprender a aprender, como meios de as pessoas alcançarem responsabilidade e autonomia. O desenvolvimento da inteligência e da aprendizagem, por sua vez, compreendem a inserção dos alunos num meio sociocultural. É através das interações com esse meio que os alunos aprendem os instrumentos cognitivos e comunicativos de sua cultura. Segundo Vigotsky, as funções mentais aparecem em dois planos da vida de um sujeito, primeiro no plano social e, em seguida, no plano psicológico.
Em síntese, as investigações atuais destacam a relevância da aprendizagem, o papel do ensino enquanto propiciador da aprendizagem e da atividade cognitiva do aluno, i.e., ensinar a pensar. A idéia é a de que o aluno internaliza conceitos, habilidades, mediante o modo de pensar a que a ciência recorre. A psicologia da cognição tem investigado os fatores internos da aprendizagem – os processos internos que ocorrem na mente do estudante durante uma experiência de aprendizagem (Beltrán Llhera, 1993).
A aprendizagem seria o resultado ou efeito do pensamento que processa os materiais informativos. Este processo inclui os movimentos, fases ou funções do pensamento no ato de aprender. Ensinar, ajudar a aprender, consiste em ensinar a pensar ou ajudar a desenvolver as distintas funções do pensamento e não só de armazenar conteúdos. Trata-se de ensinar a pensar dentro do ensino formal do currículo. A meu ver, também o ensino da educação física insere-se nesta linha de investigação da psicologia e da pedagogia.

Em conclusão:
1. Pedagogia é uma reflexão sobre o educativo, é uma orientação para a prática educativa, é uma direção de sentido das práticas de formação humana a partir de objetivos e valores que se põem à humanização das pessoas numa sociedade concreta. Ela se refere não apenas ao “como se faz”, mas ao “por que se faz”, de modo a orientar o trabalho educativo para as finalidades sociais e políticas almejadas pelo grupo de educadores. Uma visão crítica da Pedagogia assume que ter uma atitude pedagógica é dar uma direção de sentido, um rumo, às práticas educativas, de modo que a toda modalidade de prática educativa corresponda uma pedagogia. Se a educação física não tiver esse caráter pedagógico ela é inócua enquanto prática educativa intencional.
Trata-se, portanto, de entender a pedagogia como prática cultural, forma de trabalho cultural, que envolve uma prática intencional de produção e internalização de significados. É esse caráter de mediação cultural da pedagogia que faz viabilizar várias modalidades e formas institucionais de educação, entre elas a educação escolar. Todo educador físico, onde quer que esteja e seja qual for sua modalidade de trabalho e de militância, é um pedagogo.
2. Pedagogizar a ciência significa fazer transposição didática. Transposição didática é a conseqüência prática da pedagogização da ciência. Consiste em converter o saber de um campo de conhecimento – no caso, os conteúdos científicos e culturais da educação física – em matéria de estudo ou atividade física. O resultado da transposição é a seleção e organização dos saberes científicos e técnicos com a finalidade de serem aprendidos e incorporados pelos alunos mediante o ensino. Nas salas de aula, nas quadras, nas academias, o trabalho pedagógico consiste em ajudar o aluno a internalizar movimentos, a ter consciência do que está fazendo, ou seja, a atribuir significado pessoal que está fazendo. Isso significa que saberes e atividades da educação física, para se tornarem incorporados pelos alunos e eficazes para seu cultivo físico e mental, necessitam de princípios e procedimentos didáticos adequados.
3. Práticas educativas intencionais supõem conteúdos, processos do pensar, capacidades e habilidades que propiciam o dominio de instrumentos conceituais e sua aplicação. Os processos formais do pensamento e os processos da ação prática supõem a formação dos conteúdos do pensamento em conexão com o desenvolvimento de habilidades cognitivas e operativas referentes a esses conteúdos. O pensar e o agir supõem, portanto, o dominio do próprio processo de pensar e raciocinar referente ao campo científico, cultural ou técnico.
4. As práticas educativas acontecem em muitos lugares sociais, o que significa dizer que há uma dimensão pedagógica da educação física em todos os lugares em que ela acontece: nas escolas, nos clubes esportivos, nas academias de ginástica, nos hotéis de turismo etc. Tais atividades físicas e esportivas implicam uma ação pedagógica: na explicitação de objetivos sociopolíticos e pedagógicos, na condução pedagógica da formação física, no sucesso escolar que os alunos demonstram nas atividades físicas.
            As questões aqui consideradas podem fornecer uma pista para sistematização de princípios pedagógicos da educação física, a partir dos resultados das pesquisas da área e das exigências pedagógicas das práticas educativas nas escolas. Tais princípios valeriam para as práticas formais, não-formais e informais de educação física, já que em todos os lugares onde se ensinam práticas corporais também se educa, também se realiza uma ação pedagógica.
         Em síntese, a dimensão pedagógica da educação física não se reduz aos métodos e procedimentos de ensino pois envolve, também, uma intencionalidade educativa e um modo de conhecimento e aprendizagem que valoriza o sentido da educação física para os sujeitos que aprendem. A aprendizagem como processo de produção de sentido significa considerar a condição subjetiva de quem aprende incluindo suas emoções, a internalização de conceitos e habilidades, a relação professor-alunos, o significado pessoal daquilo que está sendo levado a fazer. Aprendizagem com sentido é ensinar para que os alunos – crianças, jovens ou adultos – compreendam melhor o sentido do que aprendem para suas vidas, isto é, o sentido do mundo e da sociedade, da vida humana, do corpo, das relações com os outros, das relações consigo mesmos. Portanto, se quisermos pensar a educação física como atividade curricular com forte influência no conjunto das outras disciplinas e atividades escolares e com potencial inestimável de fortalecer a educação da personalidade dos alunos, é preciso que se continue investigando seus fundamentos científicos, epistemológicos e didáticos.


LIBÂNEO, José Carlos. A Dimensão Pedagógica da Educação Física: Questões Didáticas e Epistemológicas.  In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE, XII., 2001, Caxambu, MG. Anais... DN CBCE, Secretarias Estaduais de Minas Gerais e São Paulo, 2001.
Bibliografia
BELTRÁN LLERA, Jesús A . Procesos, estrategias y técnicas de aprendizaje. Madrid, Editorial Síntesis, 1993.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo, Cortez Editora, 1999.
LIBÂNEO, José C. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo, Cortez, 2000.
LIBÂNEO, José C. Organização e gestão da escola – Teoria e prática. Goiânia, Alternativa, 2001.
LIPMAN, Matthew. Natasha - Diálogos vygotskianos. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
VÁZQUEZ GÓMEZ, Gonzalo. La educación física. In: CASTILLEJO, José L. e outros. Teoría de la educación. Madrid, Taurus, 1994.


*  Professor Titular da Universidade Católica de Goiás, Departamento de Educação e Mestrado em Educação. Texto de conferência apresentado no XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, realizado em Caxambu/MG, em outubro de 2001.

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